A Educação nos tempos modernos

O português António Nóvoa é um dos principais pensadores da educação contemporânea, é autor de mais de 200 trabalhos científicos na área de História e Educação, é reitor honorário da Universidade de Lisboa e professor convidado em Colúmbia (Estados Unidos), Oxford (Inglaterra), Paris 5 (França), além de colecionar condecorações, como a da Ordem do Rio Branco, do Brasil. Recentemente ministrou uma palestra, promovida pelo Instituto Integral, em Campinas, com o tema “A metamorfose da escola”.


Revista Prado – Como avalia o “ensinar” na atualidade?

António Nóvoa – Professores e escolas tem boas intenções ao criar novos métodos para transformar o ensinamento em algo atraente aos alunos plugados de hoje. Mas com o tradicional formato de sala de aula, as novidades não vingam. É como um colchão de espuma que quando a gente empurra a mão para o fundo a superfície até muda, mas, aos poucos, a espuma volta à sua forma original. As ideias até animam docentes e a turma no início, mas as dificuldades fazem com que se volte à antiga metodologia.

RP – Como deveria ser a escola do futuro?

António – O ambiente escolar tem que se adaptar à revolução digital para oferecer um aprendizado eficaz. O formato secular de carteiras enfileiradas voltadas para o professor como único transmissor de conhecimento não funciona mais. Aulas com cerca de uma hora, dividido por disciplinas precisa ser alterado. A organização do tempo deve ter base no ritmo da aprendizagem e não no relógio, afinal, assimilar determinados conteúdos pode levar 30 minutos ou cinco dias.

RP – Você acha que a inovação é necessária, assim como elaborar novos parâmetros e outras formas de ensinar?

António – É preciso pensar em novos ambientes educativos e o novo ambiente escolar deve apresentar uma diversidade de espaços abertos, dentro e fora do colégio, mas tendo a escola como referência. O ideal é que surja uma nova arquitetura que fomente o aprendizado com trabalhos feitos por todos, mediante discussões, pesquisas e reflexões. Se não formos capazes de mudar essa concepção, estamos a caminho da “desescolarização”.

RP – Com a concorrência acirrada entre as instituições de ensino, a evolução tecnológica crescendo a passos largos, é necessário que a educação seja repensada?

António – O conhecimento vai além das disciplinas. A base da educação é o conhecimento e o segredo está na interligação. Promover uma aprendizagem por temas, problemas e projetos, estimulando a compreensão da interligação das coisas e não com as disciplinas isoladas como é hoje.

RP – Você acredita que as instituições de ensino estão repensando seus métodos, cumprindo seu papel e evoluindo tecnologicamente?

António – As novas metodologias pensadas para o século 21 não se encaixam no formato existente. Ocorre o círculo vicioso do colchão de espuma: algumas pessoas e processos até tentam mudar o aprendizado, mas depois volta ao que era antes. Sem mudança da escola a educação não evoluirá. Se o formato da escola não mudar, não conseguimos implantar novas ideias.

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